
O recente aumento de tarifas anunciado pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, gerou repercussão mundial, afetando o câmbio e as bolsas de valores. O dólar caiu, os mercados europeus e asiáticos registraram perdas, enquanto a bolsa brasileira reagiu de forma positiva. Mas o que está por trás dessa estratégia e quais as consequências para a economia global e nacional? Para entender melhor o tema, conversamos com Gesner Brehmer de Araújo Silva, doutorando em Economia pela Universidade Federal da Bahia e conselheiro economista suplente do Conselho Regional de Economia da Bahia.
“O que os ouvintes precisam entender é que essa estratégia de tarifas é um mecanismo de protecionismo para estimular a indústria nacional. A ideia é encarecer produtos estrangeiros para que os EUA passem a produzir mais internamente. No entanto, essa tática é controversa porque, historicamente, resultou em inflação e estagnação econômica nos países que a adotaram”, explicou Gesner.
Trump aumentou tarifas de produtos chineses em 50%, da Índia e União Europeia entre 20% e 30%, enquanto os produtos brasileiros foram taxados em 10%.
“Quando um produto estrangeiro entra nos EUA com tarifas mais altas, ele se torna mais caro para o consumidor final. O objetivo é incentivar a produção interna, mas os insumos também acabam encarecendo, pois muitos são importados. Isso pode gerar uma espiral inflacionária e tornar os produtos norte-americanos mais caros para exportação”, disse o economista.
Outro efeito esperado é a retaliação de outros países. “Se um governo taxa produtos estrangeiros em 50%, é natural que outras nações respondam com a mesma medida. Isso gera uma guerra comercial, como vimos em episódios anteriores entre EUA e China. O resultado final é um mercado mais caro e menos eficiente”, alertou Gesner.
Oportunidades para o Brasil
Apesar dos riscos globais, o tarifaço pode abrir espaço para o Brasil aumentar sua presença no comércio internacional.
“Como os produtos brasileiros foram taxados em apenas 10%, pode surgir uma oportunidade de inserção no mercado americano. Além disso, com a China sendo uma das maiores afetadas, ela pode buscar ampliar seus negócios com o Brasil para suprir a queda nas exportações aos EUA”, afirmou.
O especialista destacou que o mundo vive um processo de “reshoring e nearshoring”, ou seja, as grandes economias estão tentando trazer suas cadeias produtivas para mais perto de casa.
“Nesse contexto, o Brasil pode se beneficiar, principalmente se conseguir ampliar suas relações com a China, que já investe no setor de energia e automotivo aqui”, disse Gesner.
No entanto, ele alerta que o Brasil ainda precisa superar desafios estruturais. “Temos baixa inserção no comércio global, problemas de infraestrutura e um sistema educacional deficiente. Se quisermos aproveitar essa janela de oportunidade, precisamos de investimentos pesados em qualificação profissional e tecnologia. Caso contrário, corremos o risco de ficar para trás.”
Recomendações para os empresários brasileiros
Diante desse cenário de incerteza e possíveis oportunidades, o que os empresários brasileiros podem fazer? Gesner acredita que a melhor estratégia é investir em parcerias internacionais e buscar acordos comerciais.
“O Brasil não pode ficar isolado. Precisamos fortalecer relações com a China, União Europeia, Coreia do Sul e Taiwan, que são potências tecnológicas.”
Ele também destaca a importância do planejamento e da inserção em cadeias produtivas globais.
“Infelizmente, o Brasil sempre ficou de fora dos grandes acordos comerciais. Recentemente, o acordo do Transpacífico foi firmado, incluindo Peru, Chile e Bolívia, mas o Brasil ficou de fora. Isso mostra a necessidade de maior abertura comercial.”
Gesner conclui com uma reflexão sobre a necessidade de aprendizado com outras nações.
“Tem uma frase do economista Marcos Lisboa que resume bem nossa situação: ‘O Brasil não é pobre por acaso’. Perdemos inúmeras oportunidades de aprender com as melhores práticas do mundo. Precisamos parar de tentar reinventar a roda e focar no que realmente funciona.”
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